quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chefes e orientadores em uma frase

Frases que me vêm à mente quando me lembro de meus orientadores:

Thayse Nonaka (2006)
: "Temos que montar nossa sessão de Learning Organizatiõn".

Wagner Cassimiro (2007): "Ah, vamos fazer uma noite de Networking: todo mundo troca cartão numa mesa".

Rosana Soares (2007-9): "Ah, Samantha, está ótimo, sempre tive orientandos maluquinhos mesmo".

Larissa Januário (2009): "Tem que ser um video top pans [com gestos largos dos braços] para o secretário ver".

Joana Fernandes (2009- ): "Ah, que óó-timo!"

domingo, 13 de setembro de 2009

Verde

Era verde.
Meu Deus, como era verde!
Nunca vira algo tão verde assim em sua vida toda.

Se sentou à sua frente, a cabeça nas nuvens, e foi desenvolvendo o fio muito longo de meada amorosa insossa. Mas ela, Madame Oráculo, era paga para ouvir. Falou do tal Fulano, falou da Fulana amásia dele, falou do que havia entre aqueles dois, aquela coisa arroxeada, sempre com aquela linguagem que ameniza seus próprios defeitos e, corajosamente, destaca a plausibilidade do desejo. A mesma coisa de sempre. Com aquela linguagem. Era verde em ato, palavra e, cria ela, pensamento.

Ao fim e ao cabo, ela o olhou com certa indignação. Então passara do beijo, que era um capricho longamente nutrido? Mas sua voz saiu impassível: “Agora, meu caro, temos que levar outros elementos em consideração”.

Ele não era, afinal, verde, como o era aquele verde cliente. Um verde amando um azul e morando com ele, onde já se vira! Era o primeiro caso que ela enfrentava de tão disparatada natureza. O homem que ele finalmente beijara, que consumira suas noites e o devorava de desejo era azul –natural, muito saudável, muito dono de si e sociável. Ela tentara dissuadir aquele ser verde, melancólico, sem versatilidade, a deixar aquela fantasia idiota de lado –nunca que um azul iria dar atenção a alguém duma cor tão medíocre. Beijar, vá lá; mas não mais que isso. Que ele cortasse seus devaneios.

Agastada não apenas com aquele capricho da natureza, aquela união sentimental escandalosa, ela se contorcia agora na iminência de um aconselhamento que nunca dera. Um verde e um azul, meu Deus, o que era aquilo?!

“E ela, como reagiu?”, foi sua pergunta sibilina.
“Normalmente”, retrucou ele. Mas que verde aquela criatura, cruz e credo!
“Como assim, normalmente?”, ela tornou, incitando à confissão.
O cliente soltou uma baforada. “Ela saiu do apartamento”.

Agora aquela era boa! Uma vermelha substituída por um verde! O mundo estava de pernas pro ar e aquele ser verde era (petulância das petulâncias) a causa mortis de tudo aquilo.

“E você, como se sente?”. E seu rosto deixou de ser assim tão caracteristicamente verde. Ele sorriu, coisa que ela nunca vira naquele cliente, e disse que tinham marcado para o dia seguinte, algo (ela constatou horrorizada) verde-azulado: tomar sorvete.

Ela não sabia como reagir, eram tantas coisas fora do esquadro. “Como você se sente por ter destruído a vida de uma vermelha?”, tornou ela, que também era vermelha e se sentia, a despeito do profissionalismo, agulhada em seu orgulho.

Ele, novamente verde como um abacate, verde como o mais verde dos capins ordinários, sorriu encabulado. “O problema é dela”. Mas que sonsamente verde, aquele homem! Um verde que não enxergava seu lugar na hierarquia da felicidade social!

Mas ela não podia fazer reprimendas diretas –tudo o que podia era enviar seu nome para as autoridades competentes, todas vermelhas e azuis, sabedoras das verdadeiras artes do amor, que saberiam julgar o caso com erótica eficácia. Ela se virou, gorda e magnânima em sua posição de ouvidos e boca sábios, e decretou, prudente: “Deixe o azul; ele te deixará, cedo ou tarde, e voltará para algum vermelho ou azul –é a ordem natural das coisas”.

“Mas e se ele também for verde?”

Ele viu os olhos de Madame Oráculo se arregalando ao ponto do transbordo das órbitas. Que vermelho, aquilo. Que dramático, pensou ele. “Ele não pode ser verde. Se desenvolveu azul, está registrado como azul, está em sua certidão de nascimento!”.

Ele apenas sorriu um sorriso, verde como um abacate, verde como o mais ordinário dos emocionalmente apagados, amorosamente ignorantes. Como era verde, aquilo, aquele sorriso!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Decepando olivais

“The Olive harvest”, candidato palestino ao Oscar de 2003.

São barreiras simbólicas e físicas que marcam o trajeto das personagens de “The olive harvest”, projeto simples de Hanna Elias que, a despeito de sua simplicidade técnica, consegue tocar na celeuma psicológica do povo palestino ante a ameaça do estado de Israel. São checkpoints, tanques e cercas de arame farpado que cercam os palestinos do começo ao fim do longa.

Mazen, autêntico primogênito palestino, é libertado após 15 anos de carceragem. Preso por atear fogo numa colônia israelense instalada próxima ao campo de oliveiras que é propriedade da família, é o protagonista de um triângulo de interesse amoroso que sintetiza a modernidade e a tradição entre os palestinos. Mazen disputa com seu irmão mais novo, Tahrer, a bela Raeda, caçula de uma família amiga e desprovida de filhos homens que possam levar a tradição familiar adiante. Resta, claro, casar a moçoila com algum bom partido que possa defender a propriedade da família –e quem melhor do que Mazen, o herói aclamado com chuva de flores ao chegar em casa após 15 anos de exílio?

Mazen ateou fogo numa colônia judaica; já seu irmãozinho, Tahrer, trabalha pela via diplomática, apoiando a Autoridade Palestina e as negociações de paz com Israel –as quais, pelo prisma do longa, parecem remotas. Mais e mais construções israelenses se espalham pelas terras palestinas, próximas às estradas militarmente protegidas pelo exército de Israel e próximas também aos olivais, dos quais as famílias da zona rural palestina tiram seu sustento e sua identidade, seu conforto simbólico. Esses assentamentos israelenses vão cortando o campo, atomizando a comunidade palestina e derrubando oliveiras no ínterim. A confiança entre os dois lados rui.

Resta a solidariedade comunitária: o pai de Raeda exige que esta se case com o heróico Mazen, a despeito de sua filha mais nova, Areen, não ter-se casado ainda. O desfile de contradições continua. Areen é uma autêntica deslocada palestina, que se mudou para a cidade de Ramallah, perdendo, de acordo com o pai tradicionalista, as raízes que a ligam ao solo de seus antepassados. Esse mesmo campo das oliveiras é o campo em que a tradição é defendida a unhas, dentes e a lealdade familiar acima das liberdades relacionais, “coisas da cidade”, como o amor dos filmes românticos. A tensão entre modernidade e tradição marca novamente sua presença.

Daí, o triângulo Raeda-Mazen-Tahrer pega fogo exatamente porque a pobre mocinha fica presa entre dois imperativos que parecem, na verdade, sintetizar o dilema dos próprios palestinos: desposar Tahrer, o homem da cidade, a quem ela ama; ou Mazen, que a respeita, é sensível e é um autêntico homem da roça (que ainda por cima escreve poesia!)? Diplomacia ou resistência armada? Nos dois casos, a “obrigação” do casamento se impõe, excluindo uma relação intermediária –um idílico casamento a três, em que negociação e violência se balanceiam. Não estamos na Bahia de Jorge Amado.

O fim do filme, com a mocinha em prantos, vestido de noiva ocidental, roto do barro da terra de seus antepassados, fugindo do casamento com Mazen, é a imagem disso: uma mulher que chora, prostrada, enquanto os dois pretendentes –as duas vias de libertação- ralham uma com a outra, estapeando o focinho um do outro, até chegar a lugar nenhum.